Homenagem - Ana Primavesi - Pioneira na Agroecologia e na Agricultura Orgânica (1920 – 2020)

Homenagem

Ana Primavesi - Pioneira na Agroecologia e na Agricultura Orgânica (1920 – 2020)

 

 

As palavras da engenheira agrônoma, pesquisadora, professora e produtora, Ana Maria Primavesi, ecoam como um mantra que deve ser seguido por todos que atuam no meio rural e resumem o seu legado de cerca de 80 anos dedicados à ciência e vivência prática no campo: “O solo é vida. Tudo começa e termina nele”.

Considerada a “mestra maior da Agroecologia” – como a define a engenheira agrônoma Escolástica Ramos de Freitas da Divisão de Extensão Rural da Coordenadoria de Desenvolvimento Rural Sustentável (CDRS), da Secretaria de Agricultura e Abastecimento – a dra. Ana Primavesi, como era conhecida, faleceu no dia 5 de janeiro de 2020, aos 99 anos. Por seu compromisso com o desenvolvimento rural sustentável, a Secretaria de Agricultura e Abastecimento homenageia essa grande mulher e profissional, reconhecendo que o seu legado permanece vivo e atual, e deve ser perpetuado por aqueles que absorveram seus conhecimentos e práticas de campo, entre os quais estão diversos extensionistas e pesquisadores da sua rede.

Em especial, destacamos que o trabalho da extensão rural paulista foi enriquecido com os ensinamentos e experiências da dra. Ana Primavesi, que participou de diversos eventos promovidos pela Secretaria de Agricultura de Agricultura e Abastecimento, como o Encontro de Agroecologia, realizado em Campinas, em 2003; e 9.ª Semana de Agricultura Orgânica, realizada em Campinas, em 2010. 

 

 

 

 

Um pouco sobre a sua história

Nascida na Áustria, em 1920, mas naturalizada brasileira, Annemarie Baronesa Conrad (seu nome de solteira), desde pequena, apaixonou-se pela natureza, inspirada pelo pai. “Entrou para a faculdade de Agronomia, mesmo Hitler tentando fazer com que as ‘cabeças pensantes’ desistissem de estudar. Ela não só era uma das raras mulheres na faculdade, como também aquela que se destacou por seu talento natural em compreender o invisível: a vida microscópia contida nos solos” – Trecho da biografia escrita por Virgínia Knabenn.

Ana Pimavesi veio para o Brasil em 1949, onde começou a atuar como professora na Universidade Federal de Santa Maria, e ao lado do marido, o prof. dr. Artur Primavesi, também agrônomo, implementou o primeiro curso nacional de pós-graduação com enfoque no manejo ecológico do solo.

 

 

Desde o início da vida profissional, a agrônoma estabeleceu uma metodologia própria de trabalho, sendo guiada pelos sinais que o solo oferece. De acordo com ela, os métodos de cultivo da terra em 1945 eram mais avançados se comparados aos dos dias atuais. “A monocultura estraga o solo, pois traz muitas doenças. Querem produzir muito e ter dinheiro rápido”, explicou ela, em entrevista à Revista Casa da Agricultura – Produção Orgânica, publicação da Secretaria de Agricultura, de 2013, salientando que, com a prática cotidiana, o produtor tem condições de analisar o solo e identificar as necessidades da planta, fazendo principalmente a observação das raízes. Ela também fez um alerta durante essa entrevista: “As pessoas têm liberdade de ter filhos, mas se esquecem que eles precisam de terra e alimentos para viver. As cidades não são melhores ou piores que o campo. É preciso entender que um depende do outro”.

Com uma vasta lista de cursos, palestras e publicações, sua contribuição à expansão dos princípios orgânicos é reconhecida nacional e internacionalmente. Em 2012, recebeu o One World Award, principal prêmio mundial da agricultura orgânica. Questionada sobre o valor da premiação, ela respondeu, na época, à equipe da Secretaria de Agricultura, com um sorriso e muita modéstia: “Eles que quiseram me dar!”. Na sequência da conversa, dra. Ana mostrou um cocar que ganhou de um cacique indígena, durante um evento realizado na Bahia, em 2012, em um gesto de reconhecimento pelo trabalho dela, que teve reflexos na melhoria da qualidade de vida das famílias e do solo local. Ficou claro, naquela ocasião, que para a dra. Ana receber prêmios era bom, mas ver vidas transformadas e solos tidos como mortos renascerem, era o que mais importava.

Esse conceito, dra. Ana aplicou na sua vida de produtora, ao transformar a fazenda adquirida há mais de 30 anos, em Itaí, no interior de São Paulo, de uma área degradada, em um local verdejante e de muita produtividade. “O que tem que ir para os livros são os conhecimentos apreendidos na prática diária do campo e não o contrário”, avaliou sabiamente.

 

 

 

 

Legado da pesquisadora

Ao longo de sua carreira como pesquisadora, Ana Primavesi publicou mais de 90 artigos científicos no Brasil e em revistas internacionais. Além disso, escreveu 11 livros e colaborou em inúmeras outros publicações.

Seu trabalho de maior influência é o livro "Manejo Ecológico do Solo", que revolucionou a agricultura ecológica tropical na América Latina. O livro postula que um solo saudável é o pré-requisito para plantas saudáveis, que por sua vez vão contribuir para a saúde dos homens. No livro é destacada a importância de restabelecer o equilíbrio entre o solo, os organismos do solo, as plantas, os animais e os seres humanos. Além disso, a proteção da estrutura dos pequenos agricultores, assim como o seu destino e sua cultura, foram sempre grandes preocupações de Ana Primavesi.

Ana Primavesi deu mais de 500 palestras e cursos em universidades, institutos e congressos, e inspirou seu público ao redor do mundo.

Foi cofundadora de várias organizações, como a Associação de Agricultura Orgânica (AAO) e o Movimiento Agroecológico Latino americano (Maela). Fonte: AAO

 

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